quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Oxford- verão de 2003

José, desde moleque, apresentava uma natureza incomum. Era o tipo de criança que morria de rir ao ver seu castelo de areia derreter quando a onda passava. Não se comoveu ao abrir a primeira rã no laboratório de ciências e nem chorava quando caia do skate. José não demonstrava nenhum apego material ou emocional às coisas. Divertia-se com as coisas simples da vida, mas não conseguia se lembrar de nada que o tenha dado frio na barriga ou sensação de medo.

Em seus relacionamentos, José era imparcial a quase tudo. Não era o tipo de cara romântico, mas também não era cafajeste. Respeitava todas as pessoas com quem se relacionava como se respeitasse a si mesmo. Sem a menor paciência para discutir relacionamentos, foram poucas as namoradas de longa data ao seu lado.

Após a conclusão do seu curso de Física na Universidade de Brasília, foi convidado a participar de um grupo de pesquisa do Magdalen College em Oxford, Inglaterra. Chegou em casa e declarou a mudança na mesa do almoço. Seus pais, um casal de diplomatas aposentados, empolgaram-se com a idéia de viajar para visitar o filho em terras distantes de tempos em tempos. José vendeu o carro e alguns pertences e mudou-se para um alojamento de professores perto da universidade onde se reunia o grupo de pesquisadores.

Seus primeiros dias de morador em terras britânicas foram tranqüilos. José dominava perfeitamente a língua local e já havia visitado a Inglaterra três vezes quando mais novo. Fez contato com uns amigos de infância, também filhos de diplomatas, que moravam perto dali. Marcaram de se encontrar em um pub perto de Christchurch College (local que serviu de cenário para filmagens do filme Harry Potter) às oito horas pontualmente. Todos reunidos e devidamente munidos de cerveja colocaram a vida em dia numa conversa que durou horas. Com o pub já batendo o sino da última rodada de bebidas, os comparsas decidiram esticar a conversa em um parque em frente ao alojamento de José.

Eram cinco marmanjos rindo e falando alto. Não demorou muito e a vizinhança de professores deixou claro o incomodo com o barulho. Até um ovo foi atirado por uma professora de literatura grega. Isso só fez José se divertir mais em estar ali.

Na altura da calçada onde estavam havia uma janela que, provavelmente, era a sala de algum alojamento subterrâneo. Escutava-se música saindo da sala, mas as cortinas estavam fechadas. Ele começou a prestar atenção na música e logo reparou que era Chico Buarque. Ficou intrigado em saber quem era o morador daquele alojamento. Alguém ali também conhecia música brasileira. Melhor que isso, conhecia música boa.

Nos dias seguintes José observava a janela para ver se descobria quem morava ali. Durante o dia não havia nenhum sinal de vida. Todas as noites música saía da janela. José passou a sentar-se na calçada para ouvir as músicas que tocavam ali e ficar olhando para o céu. Semanas se passaram e todos as noites José ficava na calçada, olhando para o céu, lendo um livro ou comendo algum sanduíche.

Um dia, estressado com todos os cálculos e reuniões durante a tarde, foi caminhando aliviado para a calçada esperando ouvir uma seleção de músicas boas. A janela estava em silêncio. Ele esperou algum tempo sentado ali em frente e nada. Resolveu tocar a campainha. Nenhuma resposta. Desolado, José voltou para seu apartamento.

(...)em breve.