domingo, 21 de dezembro de 2008

Tríplice Aliança

Estela se olha no espelho. Sua felicidade é digna de uma boa gargalhada, mas o frio na barriga permite, apenas, um sorriso reflexivo. Júlia, sua melhor amiga (praticamente sua alma gêmea) arruma uma mecha de cabelo que cai do coque feito no topo da cabeça. Uma ajuda a outra, uma deseja a outra a maior felicidade do mundo. Os olhos são os indicadores das emoções. Nenhuma palavra havia sido dita naquele dia. Era o dia do casamento de Estela e também era o dia do casamento de Júlia.

As duas estão prontas. Levantam-se. Uma respirada PROFUNDA. A partir dali, alívio e expectativa. Elas se abraçam e caminham de mãos dadas. Estela e Júlia entram no mesmo carro, seguem em direção a mesma igreja. O motorista olha para as duas sem entender quem é a noiva. Elas percebem a dúvida e não se importam. Afinal, esse tipo de situação era habitual em suas vidas.

As portas da igreja se abrem. As duas entram sincronizando passos. Não há nenhum pai, avô ou irmão para guiá-las. A segurança de uma está na mão da outra. Pelo caminho, rostos de amigos queridos. Os mais queridos estão, obviamente, no altar à espera das duas. Não se trata de um casamento duplo. As duas estão a caminho da mesma comunhão. No altar, Fábio olha para as noivas emocionado. Seu sonho de criança está prestes a se realizar. Ele vai casar com as duas mulheres da sua vida...

1990, Fábio tem 11 anos e se prepara para a volta às aulas. Acordou meia hora antes de o despertador tocar. Estava com uma agitação atípica. Há dias tinha o mesmo sonho: entrava em uma sala e duas meninas puxavam seus braços. Uma de cada lado, lhe partindo ao meio.

Havia tempo suficiente para tomar banho, se arrumar, tomar café e ir para a escola na sua bicicleta verde e azul. Ligou o chuveiro e encostou a cabeça na parede. A água escorrendo, quente, ardia como arranhões nas costas banhados com álcool. A pele estava toda vermelha. Ficou assim alguns minutos. O sonho que se repetia não saia da sua cabeça. Espelhos e vidros embaçados...

7:30 da manhã Estela desperta de um pesadelo aos pulos! Olha o relógio e vê que está atrasada para ir ao colégio novo. Ela tinha acabado de se mudar do Rio para Brasília e hoje era o seu primeiro dia de aula. A sua sorte era morar no mesmo quarteirão do novo local de estudos. Escovou os dentes, vestiu-se, pegou uma banana e foi caminhando até o prédio. Ainda perdida, procurava a sua sala. Viu uma menina loira e cheia de livros. "É uma nerd, deve saber me informar onde fica a turma C."

-Ei, por favor, você sabe onde fica a turma C?
-Sei, é a minha turma. Você é aluna nova?
-Aham. Acabei de chegar do Rio...
-Ah! Minha família toda é de lá! Só eu que nasci aqui. Eu A-M-O o Rio.
-Lá é ótimo mesmo. Mas meus pais vieram trabalhar aqui, então.....

As duas foram caminhando até a sala e no caminho descobriram que tinham várias coisas em comum... Sentaram-se uma ao lado da outra. Estela e Júlia adoravam as mesmas bandas. As duas tinham parentes no Rio e apartamentos no mesmo bairro. Gostavam de tomar sol, de sorvete de pistache... a amizade nascia naquele instante.

7:22, Fábio sai de casa montado em sua bicicleta. O clima ainda está chuvoso e a pista molhada. O sol começa a sair e ele fecha os olhos por um instante. O vento seca o seu cabelo molhado. Respira fundo e sente o cheiro da grama cortada. Ele pedala do começo da Asa Sul até o começo do Lago Sul. Adora ir para o colégio pedalando. Chega, prende a bicicleta a uma corrente que está na grade ao lado do portão da entrada. Dá bom dia para o SEU ANTÔNIO e pede que ele olhe a bicicleta. Anda rumo à sala. Ele está na turma C...

O sinal toca e ele apressa o passo a caminho da sala. Todos os alunos já haviam sentando. Ele era o último a chegar. O único lugar vago é o atrás de uma menina loira que já tinha sido sua colega no ano passado. Ele caminha em direção a ela sem saber se fala "oi" ou senta calado. Ela abaixa a cabeça. Ele senta calado. Durante o primeiro horário a loira à frente e a menina ao lado trocam bilhetinhos e riem. "Será que os nossos gostam também combinam com homens?"
"Com esse eu casava."
"Eu também."

O próximo horário era no laboratório e trios deveriam ser formados. Estela era mais comunicativa que Júlia, logo, convidou Fábio para juntar-se a elas. Ele aceitou o convite. A partir dali os dias se passaram e os três se entendiam cada vez melhor. Fábio, apesar da pouca idade, era muito articulado com as mulheres e se divertia conversando com as duas durante as aulas e os recreios.

Dias, meses, anos.... os três eram inseparáveis. Fábio aprendeu a cozinhar e fazia de Estela e Júlia suas principais cobaias. O lado cultural de Estela decidia os programas dos finais de semana e a paixão de Júlia por viagens decidia o destino de cada Réveillon. Um completava o outro. Um apoiava o outro. Anos se passaram sem nenhum romance, até que em um réveillon em Londres...

Londres, 31 de Dezembro de 2008. O frio estava absurdo e todos se arrumavam para a virada do ano. Fábio fazia uma receita de camarões que era a preferida de Estela e uma sobremesa de amoras, preferida de Júlia. -Nessas viagens de final de ano o destino escolhido tinha que ter uma cozinha digna das receitas inspiradas pela viagem. Essa era a única condição imposta por Fábio.- Estela colou um CD do Jamie Cullum e subiu para se arrumar. Um casal de amigos deles também estava em Londres e os encontraria em breve. Júlia estava saindo do banho. Naquele ano ela havia sido promovida a chefe do gabinete que trabalhava e por conta disso não comia mais com a mesma freqüência. Perdeu 5 Kg e estava GOS-TO-SA. Estela a viu se trocando e admirou o corpo à sua frente. Ela estava realmente, deslumbrante.

Todos prontos, o casal de amigos chega. Uma viuvinha é aberta. Champagne era uma paixão em comum aos três. Uma, duas, três garrafas. O jantar é servido. Fábio supera todas as ceias anteriores. Júlia e Estela o ajudam a servir os convidados e retirar os pratos. Os cinco seguem para festa em frente ao palácio, onde acontece a contagem. Cada um segura uma garrafa. Fábio, tem duas. Todos bêbados e congelados dançam ao som do Police. Esse era o show antes da contagem. Júlia reparava que Estela a olhava de uma maneira diferente, engraçada....o mesmo olhar vinha de Fábio. Ele olhava engraçado para as duas....

10, 9,8,7,6,5,4,3.... Fábio, Júlia e Estela dão as mãos. 2, uuuuuuum! Eles apertam as mãos e se beijam. Os três. Na boca. Isso nunca tinha acontecido. Não era um ritual normal de passagem de ano. Não para eles. Acabam o beijo e se olham. Estela e Júlia riem. Fábio ainda está em choque. Estela percebe o estado do amigo e o beija novamente. Júlia abraça os dois. Riem e dão outro beijo triplo. Um beija a outra que beija a outra, que beija o outro. E assim acontece a viagem inteira....

Na volta para Brasília o pacto é de silêncio. Aquilo, se fosse acontecer de novo, aconteceria somente em viagens. Era o combinado. Os três chegam à cidade e pegam táxis diferentes. Cada um para a sua casa. Antes de dormir o trio reflete sobre o ocorrido. O que seria dalí pra frente? Surpreendentemente tinha sido tão bom. Pra qual lugar seria a próxima viagem?

No dia seguinte ninguém se ligou. Ninguém se encontrou. Júlia havia voltado para a correria de seu trabalho. Estela estava procurando um novo apartamento e Fábio estava com o trabalho do escritório acumulado. Assim se seguem os dias da semana, até que no sábado à noite Estela manda uma mensagem para os outros dois: Reunião da cúpula aqui em casa? Fábio cozinha, eu escolho o vinho e a Júlia escolhe a música.

Mais uma noite, comendo bem, bebendo bem, rindo e dançando. O ocorrido em Londres ainda não havia sido mencionado. Coldplay começa a tocar e Fábio puxa Júlia para dançar. Os dois se abraçam e dançam, cantando a música de olhos fechados. Ela começa a passar a mão na nuca de Fábio. Pega nos cabelos e desliza sobre o pescoço. Ele a beija. Estela fica olhando. Os dois abrem os olhos e se separam. Esse não era o combinado. A amizade estava fodida? Já que vai pro inferno é pra abraçar o capeta? Namorar a três? Será que ela quer? Será que ele quer? Será que ela quer? Os três se olharam apavorados. Aquilo poderia ser a glória ou o fracasso de uma relação de anos.
Fábio: -Gente, vamos conversar?
Júlia: -Por favor, né? Cacete.
Estela: -Cacete. Voador.

-Então, é o seguinte. Eu acho isso lindo! Se vocês não alucinarem, eu topo tentar.
- Ô Fábio, não é assim não. Tentar o que? Ta loke? E a nossa família?
-Foda-se a minha família. Foda-se o resto todo. Eu acho que eu sempre quis isso, na verdade. Pensei nisso o resto da viagem inteira. Você vai me dizer que não acha que um é o equilíbrio do outro aqui? E tem mais, eu vejo o jeito que vocês se olham. Isso não é uma viagem tarada da minha cabeça.
-Eu acho o seguinte. Não precisa ser uma coisa pública. Não precisa ser tão sério. Pode ser leve, trabalhando o desapego. Eu também pensei o resto da viagem todo.
- Eu preciso de um tempo pra pensar. Quando eu souber ligo pra vocês.


Os dois vão embora. Estela, Fábio e Júlia não conseguem dormir. Estela se lembra de quando mudou para Brasília e foi para o primeiro dia de aula. Lembra que os três serem amigos partiu de uma iniciativa dela. Lembra da vez que viu Júlia sair do banho e sentiu uma admiração diferente, das vezes que tinha dividido a cama com Fábio e como aquilo a fazia bem.... Não era possível uma vida sem os dois. Não teria graça.

Júlia passou a noite refletindo sobre as mesmas coisas. As viagens programadas, as risadas dadas, os beijos trocados.... o carinho que sentia por Fábio e Estela. A cumplicidade entre os dois... o desejo que sempre havia sido reprimido.

Fábio pensava em todas putarias que os três poderiam fazer. No jeito doce de Júlia e na alegria de Estela. Uma completava a outra. Os três entravam em equilíbrio. Pensou como seria o futuro a três e viu que, na verdade, já viviam uma relação assim desde sempre. A única diferença era colocar o sexo em jogo. Um jogo a três. Para ele estava ótimo!

No dia seguinte os três se encontraram para almoçar. Estela havia escolhido o restaurante preferido de Fábio. Os três sentam-se e conversaram sobre qualquer assunto que não tivesse ligação com o ocorrido na noite anterior. Fábio esperava o pronunciamento de Estela e Júlia fazia o mesmo. Horas, pratos e bebidas. Estela propõe que o fim do almoço seja na casa dela. Ela tinha se arriscado a fazer a torta de amora preferida de Júlia.

Champagne e torta de amora. Champagne e torta de amora. Champagne. Champagne e coldplay. Eu os declaro mulher, marido e mulher.

2 comentários:

Unknown disse...

olhá...
essa historia ficou demaishh!

vamos atualizar?!
hehe!
=*

Felipe disse...

Caralho. Voador.