sábado, 15 de agosto de 2009

Perpétuos

Eu o conheci no primeiro dia de um carnaval que resolvi passar no Rio...

A promessa para Yemanjá na virada de "ter mais tempo para os bons momentos da vida" era cumprida a cada dia. E, disposta a aproveitar cada minuto da solteirice saudável dos vintes anos, fiz as malas e fui com um grupo de amigas abrir os braços para o Cristo.

Chegamos ao Galeão no final da tarde. Deixei as malas no hotel e corri para praia -o sol, se escondendo atrás do Vidigal, é o tipo de paisagem que você quer colocar em um frontlight de tão bonito- pedi um coco gelado e sentei na areia. Fiquei ali, pelo menos, duas horas. Já não era mais possível diferenciar as estrelas das luzes da favela. O Rio era, todo, um mapa celeste ligado no 220. Subi para encontrar as meninas. Uma garrafa e meia de vodka já tinha evaporado. O clima já estava "alegrinho". Bebi a metade restante para subir o degrau e ficar alta como elas.


O início da noite seria na casa de Renato, um amigo de Beatriz. Depois disso, só Deus saberia o que seria de nossas vidas....


Uma cobertura no prédio que avô dele construiu, em Ipanema. O lavabo do apartamento era do tamanho do nosso quarto, para 4 pessoas. As pessoas não seguravam taças. Eram garrafas, entregues acompanhadas de um beijo a cada convidado que chegava. Felizmente, na mesa de centro, havia uma quantidade de garrafinhas d'água equivalente as garrafas de champagne distribuídas. Fiz uma troca para garantir a sobrevivência do dia seguinte. Morrer no primeiro dia de Cidade Maravilhosa, não! O resto da noite rendeu risadas e dança esquisita. Quando estávamos as quatro reunidas SEMPRE inventávamos danças esquisitas. E o pior (ou melhor), não havia a menor vergonha em tornar público os passos descompassados.

O dia seguinte começou, para mim, com o barulho de uma mensagem no meu celular. Era Fábio, um amigo do Renato que conheci na noite anterior. "O sol saiu brilhando pra você". Aí, que preguiça.... Levanto. Vejo o estado das meninas e agradeço a Yemanjá a água que bebi ontem entre uma garrafa e outra.... Resolvo descer, beber uma água de coco e dar uma corridinha, dependendo do calor, uma caminhada....

Na volta da corrida quem eu encontro na frente do hotel? Fábio! Ele está fantasiado e me chama para um carnavaleco de rua, que sempre acontece por ali. Subo, convido as meninas e, fantasiadas e alegres, vamos cantar as marchinhas e cheirar lança perfume como os tempos áureos dos carnavais de verdade. Aqueles que a sua avó, provavelmente, foi. Entre um pierrot e outro vejo uns carnavalescos apresentáveis, bem bonitinhos. Mas nenhum era aqueeeele gato que faz você mostrar o seu lado simpático e gentil. Continuo pulando e cantando atrás do monobloco. CATAPUUUUUUUUUUUUUFT! (amou a sonoplastia?) Sou atropelada por um boi! Só pode ser! Caio de cara no chão. Levanto o rosto e vejo que tem alguém caído ao meu lado. Ele se levanta e me pega no colo.

- Ta viva?

- Duvido, mas acho que sim. Você me atropelou! Me coloca no chão!

- Eu tava correndo atrás de um mané que pegou meus óculos. Desculpa. Machucou muito?

Eu não conseguia saber de fato. Estava anestesiada ainda pelo lança....

- Não, tô bem. Talvez sem um dente, mas eu posso fingir que faz parte da minha fantasia.


Ele riu e passou a mão na minha testa para tirar a marca da sujeira que estava na rua. Eu senti um frio na barriga. Sabe aquelas cenas de filme que a música abaixa, o fundo fica embaçado e você paralisa, com cara de bocó? Eu estava nessa desgraça de estado de graça. Meus dias de solteirice saudável iriam por água a baixo? Sai correndo! Feito uma maluca. "É por causa do tombo. Calma, é por causa do tombo. Você ficou surda e parcialmente cega por um instante, mas já passou." Fui pra paia dar um mergulho no mar gelado.

Passei o resto do dia pensando na mão dele, vindo em direção a minha testa. Ele sorrindo. A música parando....ele brilhando e eu correndo! Resolvi dar outra corrida. Fui até o Arpoador e vi o pôr-do-sol mais uma vez.

Volto para o hotel e vejo um bilhete em cima do meu travesseiro. "Estamos na casa do Renato e depois vamos pro Zero-zero, quando acabar a maratona, liga no celular da Flávia." Ir à casa do Renato e encontrar o Fábio me deu preguiça. Resolvo tomar banho e comer em algum restaurante ali perto. De banho tomado, decido ir a um restaurantezinho japonês que vi mais cedo.

Vou à pé. Tenho a impressão de ter alguém atrás de mim, paranóica pelas notícias sobre a violência dos cariocas, mudo o caminho. Me perco e dou uma volta enorme. A pessoa ainda anda atrás de mim. Com o coração aos pulos resolvo virar para ver que é.

Era ele, o caminhão que me atropelou de manhã.


CONTINUA EM 24 HORAS.

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