-Oi, você tá bem?
-Quebrei duas costelas no tombo, mas tô bem. Você tava me seguindo?
-Tava pensando no que falar pra você. Achei que você fosse sair correndo de novo.
-Eu quase corri mesmo. Achei que você era um assaltante.
-Eu corria atrás de um hoje, quando te derrubei. Desculpa mais uma vez, viu?
-Conseguiu recuperar os óculos?
-Não, perdi o pivete de vista quando caí. Você ta indo pra onde?
-Pra falar a verdade, me perdi. Eu ia pra um restaurante perto do hotel, mas dei uma volta com medo de você me seguindo.
-Sabe o nome do restaurante? Eu te guio...
De lá pra cá fica fácil de imaginar. Ele era lindo. Era divertido. Gostava de várias coisas em comum. A minha viagem de carnaval se estendeu por mais três semanas. A idéia de sair do Rio e deixá-lo era algo horroroso. Morando em cidades separadas, nos víamos aos finais de semana. Tudo andava muito bem. A saudade era constante, mas matá-la a cada cinco dias era divertido. Seis meses se passaram e ele conseguiu uma transferência para Brasília. Decidimos que seria melhor morarmos cada um em sua casa no início. Ele alugou uma casa no mesmo bairro que o meu e passávamos cada vez mais tempo juntos. Conviver com ele era uma realidade tão distante da relatada por todas as minhas amigas que dividiam a casa com o namorado/noivo/marido. Eu me divertia TANTO quando ele estava por perto e sentia sua falta quando ele ia embora. Pela primeira vez na vida a idéia de dormir e acordar com a mesma pessoa ao lado, todos os dias, não me parecia um coisa esquisita. Era bom até. Decidimos morar juntos.
Eu lembro de fazer carinho no cabelo dele até ele dormir e achá-lo a coisa mais linda do mundo. Eu gostava do cheiro do travesseiro dele, do cheiro da pele. Eu mostrava pra ele tudo que achava divertido. Se alguma coisa no trabalho me stressava, a idéia de chegar e vê-lo rindo alegrava o meu dia. Com ele eu iria até ver o jogo do Flamengo, no Maracanã, num calor de 50 graus, no dia mais lotado. E iria feliz. Ele era o homem mais gostoso, cheiroso, bonito e divertido que existia. Todos os outros perderam o rosto depois que eu o conheci. Eu acho que aquilo era amor, não sei.
No carnaval, dois anos mais tarde, viajamos para o Rio. No primeiro dia de carnaval, estávamos pulando e cantando ao som do monobloco. Um menino veio correndo e pegou meus óculos. Ele saiu correndo atrás do menino. Metros a frente ele caiu. Eu saí correndo para salvá-lo. Ele, no chão gemia de dor. Se virou sorrindo e me entregou meus óculos. Em uma das hastes tinha um anel preso. Ele se levantou, tirou a camiseta e estava escrito no peito "casa comigo?" A minha reação (não me pergunte o porquê) foi sair correndo. E música ficou baixa, o fundo embaçado... eu corri! Corri muito. Pulei no mar gelado. Tentei, de todas as formas, me acalmar. Eu deveria estar radiante, não deveria? Mas, por alguma razão, eu estava apavorada. Casar é sempre um kit com filhos, responsabilidades, perda do tempo livre...
Eu voltei para o hotel. Ele estava me esperando no quarto. Eu me desculpei pela surtada. E aceitei o pedido. Voltamos para casa e o "PARA TODO O SEMPRE" pesava sobre mim. Vê-lo dormir passou a me irritar, porque o ronco dele me acordaria até o fim da minha vida. A idéia de chegar em casa e ouvir reclamações sobre o trabalho me também passou a me irritar, então passei a voltar cada vez mais tarde do trabalho. Com isso, raramente jantávamos juntos. Ao ver que eu estava distante, ele tentava me agradar cada vez mais. Eu recebia flores no trabalho com bilhetinhos, depois do banho ele se oferecia para fazer massagem. Aos finais de semana, eu acordava com café na cama. Eu acho que o que ele sentia era amor, eu não sei...
Minhas amigas percebiam o mal- humor constante e volta e meia me chamavam para sair, dançar e relaxar. Resolvi aceitar o convite de uma sexta-feira que Ele tinha acordado esquisito. Talvez outros ares renovassem o fôlego. Depois do trabalho dei uma corridinha na academia e me arrumei por lá mesmo. Segui para o bar onde elas estavam.
Confesso que dois drinks depois estava me sentindo bem mais relaxada e pela primeira vez em alguns meses ria sem preocupações. Do bar fomos para o Gates relembrar os tempos de música boa. Da entrada para o bar, do bar para pista. Aquela era uma noite de fila na porta. Há muito não freqüentava a casa. Algumas músicas depois vi que um homem lindo estava entrando na pista desacompanhado. Eu e todas as meninas acompanhamos sua trajetória para ver o destino do rapaz. Um grupo de amigos. Ele, certamente, estava livre.
Continuei dançando sem me preocupar com o grupo masculino. Eu tinha, sim, um noivo. Se admirar não arrancava pedaço, paquerar era um pouco demais. Como eu era a única na roda desinteressada no outro grupo, fui pro bar pegar mais bebida. Espero o garçon trazer os copos quando ele encosta-se ao balcão. Olhar pro lado para ver que ele era ainda mais bonito de perco foi inevitável. Ele sorri e começamos a bater um papo. Descobrimos que já havíamos estudado juntos nos tempos do ensino médio e que estávamos no Rio no mesmo carnaval.
Imediatamente Ele me vem à cabeça. Era o carnaval que eu havia o conhecido. Um monte de sensações há muito tão distante voltara de uma só vez. Nem me lembrava mais como era conversar com alguém sentindo tanto frio na barriga. Aquilo era novo, era proibido e poderia ser secreto. Voltamos para pista de dança os dois.
CONTINUA EM BREVE
terça-feira, 25 de agosto de 2009
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Um comentário:
Gostei do conto! Gostei mesmo, só nao gostei do fim que ficou pra outra parte, segue minha dica, tente acabar pelo menos a cena, se nao fica meio parecendo novela da globo! Mas me impressionei com o conto gostei mesmo, muito. Parabéns!
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